Marvel: uma jornada da falência aos bilhões

Os Vingadores. Pantera Negra. Homem de Ferro. Capitão América. Homem-Aranha. Hulk. Viúva-Negra. Mesmo que você não goste de filmes de super-heróis ou HQs, você já deve ter ouvido falar deles. Seria difícil não, afinal, nos últimos anos a Marvel conseguiu criar a maior franquia de filmes do mundo. Desde 2008, a MCU (Marvel Cinematic Universe) teve uma bilheteria com rendimento total de 22,55 bilhões, produzindo filmes que bateram diversos recordes de bilheteria.


Mas nem sempre foi assim.


Desde 1993, a Marvel Enterprises estava em colapso, adquirindo dívidas que não conseguia pagar, até que, em 1996, ela se viu obrigada à declarar falência. Na época, um terço de seus funcionários foi demitido para equilibrar o déficit. A bolha da indústria dos quadrinhos tinha estourado, depois de anos inflacionando, e a Marvel estava fraquejando com ela. Disputas internas e instabilidade era cenários comuns na empresa da época.


Um grande ponto de discussão era como se tornar lucrativa novamente, e as opiniões eram bastante divergentes: os primeiros planos para gerar renda se provaram ultrapassados. Restaurantes temáticos, discos interativos e figurinhas – todos falharam em reerguer a empresa. O único ponto bem-sucedido da época foi a Marvel Studios e seus filmes, mas nem esses estavam gerando lucro para a empresa, que tinha vendido os direitos para outros estúdios a fim de gerar dinheiro rápido. Assim, produções como Blade, O Caçador de Vampiros, X-Men: O Filme, e Homem-Aranha estavam tornando o gênero de filmes de super-heróis popular novamente, mas a Marvel não estava aproveitando nada disso (aparentemente, a Marvel teria recebido só $25 mil doláres dos $70 milhões de Blade, $62 milhões dos $3 bilhões de Homem-Aranha 1 e 2, e absolutamente nada de X-Men).



Foi em 2003 que David Maisel percebeu essa grande oportunidade. Não fazia sentido continuar vendendo o seu ‘ganso de ouro’ para que outros estúdios lucrassem em cima dele. O plano de criar um estúdio de cinema para produzir os filmes da Marvel foi recebido com hesitação. Finalmente, a empresa estava conseguindo algum lucro, e a Marvel Enterprises estava longe de ter o caixa necessário para financiar uma mega-produção por conta própria.


Maisel persistiu, e foi contratado como presidente da Marvel Studios. Em 2005, ele acabou por conceber o modelo financeiro que tornaria a reformulação da Marvel Studios possível.


O modelo financeiro era, basicamente, uma grande aposta. Para garantir um financiamento da Merrill Lynch por sete anos de $525 milhões de dólares, que permitiria a criação do estúdio, a Marvel colocou 10 de seus personagens como colateral: Capitão América, Os Vingadores, Nick Fury, Pantera Negra, Homem-Formiga, Manto & Adaga, Doutor Estranho, Gavião Arqueiro, Quarteto Futuro e Shang-Chi. Se o plano da Marvel Studios falhasse, eles teriam perdido os direitos para todos esses personagens, e a MCU que conhecemos hoje seria apenas o que era na época: um plano sonhador.


Um nome que você pode ter sentido falta nessa lista é o nome do Homem de Ferro. Quando o financiamento foi fechado, o personagem ainda pertencia à Warner Bros., assim não estava incluso em nenhuma parte do acordo (o que também significa que a Marvel não poderia usar o dinheiro do financiamento para produzir esse filme). Dois meses depois do acordo de financiamento ser fechado, a licença da Warner Bros. expirou, e os direitos sob o Homem de Ferro retornaram para a Marvel.


Foi daí que a opção de produzir o filme apareceu. O personagem nunca tinha estado em um live-action antes, então era pouco conhecido pelo público em geral. O ex-editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, uma vez escreveu em seu blog: “As crianças que não conheciam bem o personagem não se interessavam por ele porque pensavam que ele era um robô". Mas havia um ponto positivo: quando essas mesmas crianças foram apresentados à vários personagens, suas habilidades e armas, e foram questionados de qual herói elas mais gostariam de brincar com um brinquedo, elas escolheram o Homem de Ferro. O que a Marvel não esperava lucrar com a bilheteria do filme, ela pretendia lucrar com merchandise.


O filme foi financiado com o dinheiro da própria Marvel (custando 'apenas' $140 milhões de dólares, em comparação com os $356 milhões que Vingadores: Endgame custou). A situação era precária, aparentemente mais de 30 roteiristas recusaram o projeto pela pressão de tornar um personagem tão obscuro popular.


O resto é história. O Homem de Ferro foi um grande sucesso de bilheterias, e logo a Marvel readquiriu os direitos sobre outros personagens. Um ano depois do lançamento do primeiro filme do que se tornaria a MCU, a Walt Disney Company comprou a Marvel por $4,3 bilhões de dólares – muito mais do que ela teria valido cinco anos antes, e muito menos do que ela viria a valer.


Nunca, na história do cinema, uma aposta valeu tanto. Era o início de uma década de filmes e muitos bilhões de dólares.

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