Apple: a salvação em uma dose saudável de competição

Se vamos falar de negócios que deram a volta por cima, não podemos deixar de mencionar o mais notório exemplo disso. Em 1997, a Apple estava praticamente quebrada – em 2018, ela se tornou a primeira empresa do setor privado a atingir a marca de $1 trilhão de dólares. Atualmente, apenas catorze países tem PBI anuais maiores do que a capitalização de mercado da companhia.


Steve Jobs tinha deixado a empresa (ou melhor, tinha sido expulso, por inúmeras razões) há mais de dez anos. Logo após, ele fundaria a NeXT, concorrendo com a própria empresa que tinha co-criado. No entanto, no final da década de 90, nenhuma das duas empresas estava muito bem. Em 1996, ele diria em uma entrevista: “A Apple era uma empresa baseada em inovação. Quando saí da Apple, dez anos atrás, estávamos dez anos à frente de qualquer outra pessoa. A Microsoft levou dez anos para copiar o Windows. O problema era que a Apple parou. (...) O caminho para a Apple - e acho que a Apple ainda tem futuro; existem pessoas muito boas lá e há uma enorme lealdade à marca - não é cortar gastos, é inovar. Foi assim que a Apple chegou à sua glória e foi assim que a Apple pôde voltar a ela.”


No mesmo ano, a Apple comprou a NeXT por $ 400 milhões de dólares, para criar seu novo sistema operacional, trazendo Steve de volta para a empresa, primeiramente como consultor. A empresa tinha agora a sua fonte de inovação, mas ela não tinha os recursos financeiros necessários para tornar a inovação uma realidade: ao invés disso, ela estava cortando um terço da sua força de trabalho, e à beira da falência. Até o final do ano, a Apple havia perdido $ 867 milhões de dólares e o valor total de suas ações era inferior a $ 3 bilhões de dólares.


Sua maior competidora é, e era na época também, a Microsoft. Sobre essa competição, Steve disse que se a Microsoft tivesse que perder para a Apple ganhar, então a Apple perderia feio. A Apple não tinha o necessário para bater a Microsoft, e felizmente, ela não precisava ter. Um exemplo perfeito do ditado “se você não pode vencer seu inimigo, una-se a ele”, a Apple fez exatamente isso.


Em Agosto de 1997, Jobs anunciou na Macworld Expo de Boston que a Microsoft tinha acabado de salvar a Apple: nela, ao lado de Bill Gates, eles anunciaram um contrato de cinco anos que lançaria uma versão atualizada do Microsoft Office para Mac e o investimento de $ 150 milhões de dólares da Microsoft na Apple. O negócio, que foi um famoso marco na história entre as duas competidoras, foi imortalizado na capa da revista Time, com uma imagem de Steve Jobs em uma chamada com Bill Gates, e a legenda: “Bill, obrigada. O mundo é um lugar melhor.”


A notícia foi recebida com vaias da platéia, mas o acordo funcionou bem. A Microsoft investiu em ações preferenciais sem votos, a Apple largou uma ação acusando a Microsoft de roubar se sistema operacional, a Apple recebeu a promessa da Microsoft que o Pacote Office seria compatível para o sistema Mac pelos próximos cinco anos, ao menos, e a Microsoft conseguiu se proteger de algumas acusações de monopólio com a manobra. A Apple tinha o capital necessário para se transformar, e a Microsoft tinha em mãos uma oportunidade de negócios.


A partir daí, a Apple conseguiu se transformar. Steve Jobs cortou 70% dos planos de produtos da Apple, encomendando a campanha publicitária "Think Different" da empresa e repensando a forma como os produtos foram criados.


"Estamos tentando voltar ao básico", teria dito Steve em uma reunião com a equipe. Um vídeo da reunião publicado on-line mais tarde mostrou-o com shorts e sandálias. “A questão agora não é: podemos mudar a Apple? Eu acho que é: podemos tornar a Apple realmente grande de novo? "


O foco na simplicidade tornou-se uma marca registrada da Apple, desde de a maneira como seu CEO se vestia - jeans e uma blusa de gola alta preta e tenis se tornou sua marca registrada - à maneira como seus produtos funcionavam, a aparência das suas lojas, e de seus escritórios.


Em 1998, a Apple lançou seu série de computadores iMac (a primeira linha ao usar o prefixo “i”, retomando à internet, individualidade e inovação), que foi muito bem recebida no mercado. Foi nesse mesmo ano, Steve Jobs convenceria o atual CEO, Tim Cook, a vir trabalhar para ele. A partir daí, a Apple não parou mais. Em 2001, ela lançou o primeiro iPod, em 2007, o primeiro iPhone, e em 2010, o primeiro iPad.


Esse não foi o fim da competição entre a Apple e da Microsoft - ao invés disso, as duas seguem em frente, competindo para inovar e moldando a indústria da computação. A notória competição entre as duas é um exemplo admirável de como isso pode ser uma ferramenta para o crescimento, e mutualmente benéfico: é provável que nenhuma das duas conseguiria ter crescido tanto sem a outra. Um ano depois da Apple se tornar a primeira empresa a chegar à um trilhão em seu valor de mercado, foi a vez da Microsoft se tornar a segunda. Atualmente, só outras duas empresas já ocuparam esse patamar: Amazon, em setembro de 2018, e a Alphabet (empresa mãe da Google), em janeiro de 2020. Comprovando que ninguém corre tão rápido como quando tem outros para alcançar e ultrapassar.


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